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Biotrigo

Segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Em busca de informação para mais sustentabilidade

Quem vê no conhecimento um fator indispensável para a produção agrícola, está pronto não só a participar de encontros técnicos locais, mas a ir longe, atrás do conhecimento. Em Santa Maria do Oeste-PR, um produtor de soja ilustra esta tendência, cada vez mais forte entre aqueles que procuram inovação.

Ávido por informação, Anselmo Stuepp tem ido a outros municípios para participar de cursos e eventos rurais e também viajado por conta própria atrás de novidades. Na EMBRAPA-Soja, em Londrina (PR), ele descobriu uma tecnologia que utiliza a microbiologia como aliada da soja: a coinoculação, na cultura, de rizóbios e azospirillum.

No último dia 28 de agosto, a reportagem da REVISTA DO PRODUTOR foi à propriedade de Stuepp, para conhecer de perto a trajetória que ele vem trilhando ao adotar aquela opção. “Sempre acreditamos que os microorganismos de solo são os nossos grandes defensores”, observou, completando que a ideia pareceu interessante porque se encaixa no conceito de uma agricultura mais sustentável.

Entre 2016 e 2017, nesta linha de pensamento, o agricultor participou do Curso Inspetor de Campo – MIP Soja, promovido em parceria pelo SENAR-PR e Sindicato Rural de Guarapuava, em propriedades da região, quando passou a usar a técnica em 100% de sua lavoura.

Já a introdução da microbiologia na fazenda, rememorou, ocorreu na safra 2015/2016, marcada por muita chuva e pouca luminosidade solar. “Se não tivesse feito esta aplicação, provavelmente eu teria que ter replantado 70% da minha lavoura, por efeito de problemas climáticos”, estimou. De acordo com o agricultor, este resultado o levou a aplicar esta técnica desde então. Stuepp observa que, a seu ver, o importante não é obter produtividades extremamente elevadas, mas conseguir rentabilidade por meio do equilíbrio entre produção e custos: “as minhas produtividades nunca foram de ponta. Elas sempre oscilaram em termos medianos. O que nós contrabalançamos a esta condição de produtividade média está nos custos de produção. Ou seja: menores investimentos, diante de bem menores quantidades de produtos que se aplica na lavoura”. Em seus cálculos, isto significou, em 2015/2016, um patamar de 135 sacos por alqueire; em 2016/2017, 160; e em 2017/2018, 140.

Embrapa: "uma cidade de pesquisa"

Entretanto, para utilizar a coinoculação pela primeira vez, o agricultor mais uma vez mostrou sua disposição para buscar informação: decidiu pegar a estrada para visitar por conta própria a instituição de pesquisas pública no Norte do Paraná. Ele ainda fala com admiração do sentimento que teve diante das instalações. “Me impressionou. Descobri lá uma cidade de pesquisa”, comparou. Stuepp também se disse impressionado com a pronta atenção que recebeu dos vários pesquisadores com quem conversou. Entre eles, Mariângela Hungria. Com graduação em Engenharia Agronômica e mestrado em Solos e Nutrição de Plantas pela USP/ESALQ, doutorado em Agronomia (Ciência do Solo) pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e pós-graduação na Cornell University, University of California - Davis e Universidade de Sevilla, ela atua na EMBRAPA desde 1982, realizando pesquisas num campo em que se tornou especialista. “A doutora Mariângela foi o meu despertador para o início da implantação do processo de microbiologia de solo”, enalteceu, apontando que o diálogo então iniciado perdura até hoje.

A REVISTA DO PRODUTOR RURAL também conversou com a pesquisadora da EMBRAPA-Soja sobre a coinoculação desenvolvida pela instituição e voltada às culturas de soja e feijão. Mariângela recordou que os rizóbios, que são bactérias fixadoras de nitrogênio, por si já traziam benefícios, conforme demonstrou um longo trabalho: “É uma pesquisa que tem mais de 20 anos e que tem mostrado que o agricultor, usando inoculante com bradyrhizobium todos os anos, em áreas velhas – porque a maioria aqui das nossas áreas aqui no Paraná já são áreas velhas –, consegue um incremento médio de 8% no rendimento”. O resultado, segundo assinalou, se confirma a campo, em mais de 100 ensaios. A razão disso, detalhou, é que “essas bactérias formam os nódulos e fixam nitrogênio”.

Ela acrescentou que existe também uma outra classe de bactérias benéficas, como o azospirillum, cuja ação principal é uma grande produção de hormônio de crescimento de plantas. “Temos um enorme aumento na massa de raízes. Essa maior massa das raízes permite à planta absorver mais água, mais nutrientes, a ter mais raízes, para formar mais nódulos. Com isso, aumenta não só toda a absorção de água e nutriente pela planta, como a própria fixação biológica do nitrogênio”, pontuou.  A inoculação dos dois tipos de bactérias, prosseguiu, mostrou efeito positivo na produtividade: “Naquelas áreas velhas, onde tínhamos o aumento de 8% do rendimento, ele passa para 16% em média”.  

Ela acrescentou que a EMBRAPA e a EMATER iniciaram, há cerca de três anos, um trabalho conjunto com o objetivo de divulgar aquela tecnologia no Paraná. “Temos feito uma difusão muito boa. Só ano passado a gente fez unidades técnicas de referência em 31 locais e a difusão para mais de 600 agricultores. E os resultados, de ganho de rendimento com a coinoculação, foram confirmados em 98% dos locais”, declarou.

A especialista também se disse feliz de ver o interesse dos vários produtores que constantemente tomam a iniciativa de entrar em contato com a EMBRAPA-Soja para buscar informação sobre a coinoculação e outras tecnologias. Na troca de idéias com o agricultor de Santa Maria do Oeste, Mariângela declarou ter achado interessante o fato de que Stuepp voltou depois para contar como havia sido o desempenho da lavoura. “A gente fica muito contente com isso. Principalmente, porque ele deu um retorno, trouxe fotos”, lembrou.

Hoje, ela avalia que a tecnologia ganhou espaço na agricultura. “Realmente está um grande sucesso entre os agricultores. A gente fica muito feliz com isso. Está dando certo e a gente precisa hoje de coisas que deem certo a um baixo custo”, finalizou.

E enquanto transcorre o segundo semestre do ano, Stuepp comemora a boa formação de sua cobertura de inverno com azevém (foto), reafirma sua decisão pelo MIP, viaja a EMBRAPA-Soja para mais trocas de idéias, como no dia 10 de setembro, reúne mais conhecimento e se prepara para, dentro em breve, iniciar a semeadura de mais uma safra de soja. Com a coinoculação.

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