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Biotrigo

Terça-feira, 28 de maio de 2019

Cerrado registra volume de chuvas acima da média e doenças afetam lavouras de trigo

Entenda as causas, sintomas e a complexidade das doenças que estão prejudicando a safra 2019 nas lavouras de trigo de Goiás, Minas Gerais e Distrito Federal

O excesso de dias chuvosos e consequentemente um ambiente muito mais úmido do que em anos anteriores criou uma condição extremamente favorável para o desenvolvimento atípico de doenças nesta safra de trigo no Cerrado brasileiro. E não foi só uma doença, mas um complexo de doenças de trigo. A epidemia foliar, veloz e de grande extensão, surpreendeu produtores e técnicos, que comunicam quebra na produção. Por isso, nas últimas duas semanas, pesquisadores de diferentes elos do setor tritícola visitaram lavouras dos estados de São Paulo, Goiás, Minas Gerais, e Distrito Federal com o objetivo de tentar, em conjunto, realizar a correta diagnose do complexo de doenças responsável pelos danos.

Segundo o agrometeorologista da Rural Clima, Marco Antônio dos Santos, além do grande volume de chuvas - de 20% a 40% superior para a média na região -, as temperaturas também se mantiveram muito acima do normal, principalmente as mínimas. “Em muitos locais, os volumes de chuvas totais ultrapassaram os 850 mm e, em alguns períodos deste verão e do outono, as temperaturas mínimas ficaram até 3 a 4°C acima da média. Um prato cheio para um maior desenvolvimento de doenças”, comenta. A média de chuva na região varia entre 600 e 750 mm.

O agrometeorologista comenta que todo clima atípico tem um causador. “Muitos poderão dizer que é o El Niño, mas não é. Foi exatamente a não influência clássica dele que provocou chuvas acima da média em toda metade Norte do Brasil nesses últimos 6 a 8 meses. Isto é, mesmo os Institutos Climatológicos de todo o mundo, em especial a NOAA, estarem divulgando que o clima está sob efeito do El Niño desde a primavera de 2018 no hemisfério Sul, a atmosfera não vem respondendo com tal. Apenas em alguns momentos, ao longo desse período, é que se observou um clima semelhante ao de um El Niño. Até porque entre os meses de dezembro e janeiro, houve registros de seca no Sul do Brasil, algo que não é muito comum para um ano sob influência do El Niño.

Na opinião dele, como o clima/atmosfera não foi influenciado por um El Niño clássico, os corredores de umidade ficaram muito aleatórios e, com isso, houve períodos até que a atmosfera se comportou com uma La Niña, causando muitas chuvas sobre as regiões Central e Norte do Brasil. “Por isso, foram registradas chuvas bem acima da média sob as áreas produtoras de trigo de MG, GO e DF”, afima.

 

Complexo de doenças em análise

Paulo Kuhnem, fitopatologista da Biotrigo Genética, comenta que essa complexidade de fenômenos climáticos criou um cenário ideal para ocorrência de diferentes lesões foliares que causaram um complexo de doenças que não ficaram restritas apenas às lavouras de trigo, mas também afetando outros cultivos da região, como milho e feijão. “Foi realmente um ambiente extremamente favorável para a ocorrência de doenças foliares. Provavelmente essa situação não estaria sendo observada, mesmo nos plantios mais antecipados se fosse um ano como foram as últimas três safras na região”, comenta. “Muitas das amostras recebidas pela Biotrigo de técnicos e agricultores tinham folhas com elevado número de lesões de Brusone e de Bacteriose, sintomas em igual intensidade que eu só tinha observado na Bolívia onde essas doenças ocorrem com frequência devido ao clima úmido e quente da região”, complementa.

Tanto a Brusone na folha quanto a Mancha Marrom necessitam de elevado número de horas de molhamento foliar contínuo (14 e 11h, respectivamente) e temperatura acima dos 24°C, inclusive à noite. Esses períodos prolongados de condições favoráveis as infecções desses fungos além de aumentar o número de infecções foliares também são condições ideias para a multiplicação de bactérias. “As bactérias não conseguem penetrar diretamente no tecido foliar, necessitando de aberturas naturais (como os estômatos e hidatódios), ferimentos causados por insetos ou ainda lesões foliares como as de Mancha Marrom e Brusone. Por tanto, ambiente extremamente favorável e em períodos prolongados, associado a presença de lesões foliares, proporcionaram condições para bactéria infectar e rapidamente aumentando os danos foliares nas lavouras. Como as bactérias se multiplicam de forma muito rápida, em poucos dias as lavouras podem passar do verde para completamente amarelas e, nos casos mais severos, causando a morte das plantas”, ressalta.

O pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), Maurício Antônio de Oliveira Coelho, concorda que se trata de uma situação nova para os triticultores na região do Cerrado e que até o correto diagnóstico, a assistência técnica e a pesquisa só podem responder apenas baseados na sintomatologia observada. “Todos foram pegos de surpresa. Era praticamente impossível trabalhar de forma preventiva. A partir do momento em que as primeiras lavouras demonstraram, a gravidade da situação, produtores começaram a fazer as primeiras aplicações curativas. Posteriormente, em lavouras mais novas foram feitas aplicações preventivas”, relata.

 

Agente causal

As análises encaminhadas pelos pesquisadores de diferentes elos do setor tritícola ainda estão em andamento e, por isso, não há a confirmação exata do que causou a quebra nestas regiões. Um dos fatores que estão dificultando a sintomatologia é a ocorrência de outras doenças de forma concomitante. Paulo comenta que nas amostras coletadas nas lavouras de Minas Gerais, Goiás e Distrito Federal e analisadas no laboratório de fitopatologia da Biotrigo, pode-se isolar colônias de bactérias, que numa análise inicial, tem tido enquadramento em sua maioria dentro do gênero Xanthomonas. “Ainda estamos realizando mais testes para tentar identificar a espécie ou patovar desses isolados bacterianos para então poder dizer que se trata ou não da Xanthomonas já relatada inúmeras vezes no Brasil”. Nas lavouras acompanhadas não foram observados sintomas de estria bacteriana padrão causada por Xanthomonas transluces pv. undulosa, que como o nome indica, causa estrias no sentido das nervuras de coloração marrom. “Vale ressaltar que também isolamos bactérias que não se enquadraram nesse gênero, e por isso também estamos investigando se essas são patogênicas no trigo ou apenas contaminantes nas amostras”, complementa.

Também foram isolados nas amostras testadas pela Biotrigo, nas lesões com sintomas típicos de Brusone, colônias do fungo Pyricularia oryzae, que é o agente causal da doença. “Não foi possível isolar o fungo agente causal da Mancha marrom (Bipolaris sorokiniana) nas amostras recebidas, mesmo das lesões consideradas típicas. Contudo, isto não significa que a Mancha marrom também não esteja envolvida neste complexo de doenças. Estas amostras levaram um tempo para chegar no nosso laboratório aqui em Passo Fundo e isto pode ter afetado a viabilidade deste fungo. De qualquer modo estamos reprocessando estas amostras e também aguardando mais amostras chegarem para podermos ter mais dados dos patógenos envolvidos na situação desse ano, considerada por agricultores e técnicos locais como atípica”, ressalta Paulo.

Linhas de ação para as próximas safras

Na opinião do melhorista da Biotrigo, André Schönhofen, a velocidade e extensão dos sintomas nas lavouras foram os motivos que geraram mais dúvidas entre os produtores, técnicos e empresas de pesquisa. “Em nossas visitas, verificamos que lavouras em todos os estádios de desenvolvimento apresentavam sintomas foliares. É importante destacar que se esse ano fosse mais próximo de um clima considerado normal, é provável que as lavouras semeadas dentro das datas do zoneamento agroclimático estivessem significativamente melhores, tanto em sanidade de folha como de espiga”, disse.

Maurício, da Epamig, concorda que a tomada de decisão do produtor quanto a melhor época de realizar a semeadura será decisiva para o controle das doenças nas próximas safras. Ele acredita que a partir da diagnose correta e conhecendo os danos potenciais causados por estas doenças foliares, o produtor de trigo deva trabalhar em duas linhas de ação principais para o trigo no Cerrado. “Primeiro: não recomendar, em hipótese nenhuma, semeadura de trigo fora do zoneamento (meses de janeiro e fevereiro). Para semeaduras em março, trabalhar de forma preventiva na aplicação de fungicidas recomendados para cada situação. Segundo: é muito importante que os produtores conheçam as condições climáticas que favorecem às doenças foliares e a Brusone na espiga. A busca de informações climáticas, quer seja do histórico da região quanto das previsões para os meses de cultivo, poderão auxiliar enormemente na tomada de decisão do produtor quanto a melhor época de realizar a semeadura”, finaliza.

 

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