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Terça-feira, 02 de março de 2021

Safra 2020/2021 frente ao desafio do mofo branco

“Quando vai voltar a chover normalmente?” – Quem se lembra desta pergunta, que rondava o pensamento de muitos produtores rurais do centro-sul do Paraná, no início dos ciclos do milho e da soja, em outubro de 2020? Pois janeiro de 2021 impôs outra pergunta: “Será que vai parar de chover?!” A mudança do tempo, que ocorreu em algumas semanas na região, acompanhou a tendência de várias áreas agrícolas pelo interior do estado, que também viram, no período, os céus trazerem muita água e preocupação em relação a algumas culturas de verão.

Refletindo esta a situação, uma propriedade situada no distrito de Palmeirinha, em Guarapuava, registrou nada menos do que 422 mm apenas no primeiro mês do ano, de acordo com o produtor Ewald Müllerleily. Dia 5 de fevereiro, no momento em que o sol voltou a brilhar na região e os produtores retomaram as rotinas dos manejos das lavouras em ritmo acelerado, a reportagem da REVISTA DO PRODUTOR RURAL foi até a fazenda, onde conversou com o agricultor. “Grande parte dessa chuva aconteceu em 15 dias, quando não tivemos um dia sem chuva”, detalhou. Ele recordou que no passado viu precipitações volumosas no ciclo da soja, mas estimou que a pressão de doenças era menor: “Há muitos anos, já tivemos uma condição assim, muito pior talvez do que isso aí. Talvez, naquela época, a gente não tinha tanto problema com a esclerotínia ou talvez muito menos problema com questões de fungos e bactérias”.

Cooperado da Agrária, Müllerleily ressaltou que está bem respaldado pela assistência técnica e pela pesquisa da cooperativa, mas observou que em 2020/2021 a dificuldade ficou mesmo por conta do tempo, que encharcou o solo nas lavouras, chegou a provocar o atolamento do maquinário e a realização de uma rotina normal de trabalho: “Nós estávamos bem amparados tecnicamente pela pesquisa da Agrária, da FAPA, com os produtos na mão. Em algumas partes, a gente conseguiu aplicar antes da chuva. Na segunda época, em que nós deveríamos ter aplicado, estavam esses dias de chuva, que não permitiram entrar de maneira alguma nas lavouras”.

Para o agricultor, a situação apontava que sua safra de soja teria uma produtividade abaixo do patamar que vem obtendo nos últimos anos, em torno de 75 sacas por hectare: “Na faixa de 65, talvez”. No caso de um cenário “muito animador”, ele arrisca um número também abaixo de sua meta: “70 sacas”.  

Müllerleily mencionou ainda uma segunda preocupação, trazida igualmente pela umidade: a antracnose, que em sua avaliação até o momento não havia trazido grande redução na produtividade, desta vez se mostrava mais severa. “Para nós, nunca foi uma doença importante, que tivesse perdas significativas. Esse ano, depois da chuva, a gente começou a ver isso aí de maneira forte, mas já sendo alertado pela pesquisa”. Segundo completou, este apoio técnico mostrou que danos às plantas, aparentemente causados pelo excesso de água, tinham na realidade outra causa: “No começo a gente ia pro campo, olhava aquilo, achava que era perda por excesso de umidade, que o baixeiro estava definhando por motivo de chuva e falta de sol. Agora estamos correndo atrás para conseguir deixar essas aplicações em dia e assim minimizar o problema”.

Pesquisador da área de Fitopatologia da FAPA, Heraldo Feksa, assinalou que desta vez as chuvas chegaram no início do florescimento da soja, favorecendo a esclerotínia num momento crítico da cultura. Para ele, a doença é mais grave do que outras: “O mofo é até pior do que a ferrugem da soja. Ele causa um dano na haste principal, ou às vezes na haste lateral, mas acaba matando a planta”. Com isso, prosseguiu, vêm as reduções de rendimento, que em geral, segundo apontou, podem variar de 500 kg a 2000 kg por hectare, dependendo de vários fatores, como a pressão, a época de ocorrência e o manejo utilizado, entre outros.

Este potencial de danos à soja, acrescentou o pesquisador da FAPA, se explica também pela forma de propagação do mofo branco: “A gente sabe que a germinação dele é heterogênea, ao longo da semana, ao longo do mês. Então, ela vai pegando diferentes fases da cultura. Por isso que é uma dificuldade o controle. Inclusive, com uma aplicação, você não resolve. São entre duas e três”.

Já a antracnose, também causada por fungo, começou a ser observada na propriedade, de acordo com Feksa, na semana do dia 5 de fevereiro. Ele alerta que a doença pode ser confundida com os efeitos do excesso de chuva e que a conseqüência é também a redução de produtividade: “Ela começa a atacar no vegetativo e se intensifica no período de florescimento. Nesse florescimento, causa muito abortamento de flores e também de vagens. Você vai encontrar muita vagem no chão. E pode pensar: ‘Ah, não, isso aqui pode ser o fator climático’. Até pode, por muita chuva. Só que está aliado também a essa doença. Talvez ela não mate a planta, mas a planta acaba tendo uma carga menor de vagens. Isso representa uma grande perda de potencial produtivo”.

E enquanto no campo produtores de várias regiões do Paraná prosseguiam com os manejos da soja ou já iniciavam a colheita, a SEAB também dava continuidade às estimativas de safra em todo o estado. Na regional da secretaria em Guarapuava, que acompanha a agricultura em 10 municípios, uma estimativa do dia 25 de janeiro deste ano já previa uma redução da produção regional de soja, caindo de 1,16 milhão de t em 2019/2020, para 1,12 milhão de t em 2020/2021.  

Pesquisador ressalta que observar lavoura é importante para o manejo

A REVISTA DO PRODUTOR RURAL conversou também com o pesquisador Maurício Meyer, da EMBRAPA Soja (Londrina-PR), sobre a esclerotínia (mofo branco). À frente da equipe de Fitopatologia daquela instituição, ele afirma que o tempo úmido favorece a ocorrência na soja e menciona estratégias de manejo, químico ou biológico. Mas em qualquer das opções, observar a lavoura é importante.

“É uma doença bastante dependente da condição de ambiente. Chuvas freqüentes e temperaturas médias abaixo de 25°C. Noites abaixo de 20°C e molhamento de solo. Quando você tem fechamento das entrelinhas, provavelmente vai ter maior manutenção de umidade na superfície do solo, com relativo sombreamento. E com temperaturas mais amenas, chega-se na condição ideal para germinação carbogênica, que é a formação de apotécios nos escleródios. No caso da soja, a infecção da planta através dos esporos produzidos nesses apotécios, é que é importante. A partir daí é que ocorre a instalação da doença na planta. As flores são a principal porta de entrada da infecção. O produtor precisa ter esse conhecimento em mente e esse hábito de, nesse momento de fechamento das entrelinhas e com a soja em flor, andar pela lavoura procurando ver se encontra a presença de apotécios. Se encontrar, é sinal de que o ambiente está favorável para o fungo e provavelmente vai ter o desenvolvimento da doença. Nesse caso, ele precisa começar a proteção da planta com os fungicidas. E geralmente, do período de florescimento e até o início do enchimento de grão, duas ou três aplicações são suficientes. Além do controle químico, existe o biológico. Um controle cultural importante, dentro desse manejo, é ter uma boa cobertura de palhada de gramínea. Essa cobertura vai favorecer o estabelecimento dos agentes antagonistas, que são os que promovem o controle biológico da esclerotínia. Não adianta pensar em fazer uma aplicação de um agente de controle biológico no solo seco e sem cobertura com palhada.

Essas aplicações, a gente faz em V2, em V4. E também o controle biológico pode ser empregado no pós-colheita na área da soja, em regiões em que a chuva ainda permite essa condição, em que vai ter alguma outra cultura de entressafra: uma safrinha, por exemplo, de milho, ou com alguma cobertura de solo – um milheto, braquiária, ou mesmo culturas de inverno. Aqui no sul: trigo, cevada, aveia. É necessário que essas plantas da segunda safra, já estejam mais ou menos grandes para fazer um certo sombreamento e dar uma certa proteção desses produtos biológicos. E a palhada então tem essa condição: quando você tem a soja e tem a produção desses apotécios, eles vão ficar debaixo dessa palhada, ela já vai servir como um filtro, uma barreira física. O segundo benefício é ter o condicionamento de solo com aquela camada superficial de composição de matéria orgânica. Essa matéria orgância também serve como um substrato para o estabelecimento desses agentes de controle biológico, sejam fungos, bactérias”.

 

 

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