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Segunda-feira, 24 de junho de 2019

O plantio na época de chuvas

James Thompson

Jornalista agrícola, criado numa fazenda norte americana de Tennessee e blogueiro mensal para a revista Farm Futures

 

Numa primavera normal, em comunidades como Mount Olive, Illinois e Portage, Indiana, teriam jarros de vidro nos quintais, com sacas de chá, se esquentando no sol. Mas não na “primavera” de 2019. Longe disso, os agricultores têm passado dias olhando para o sol, esperando uma trégua enquanto a janela do plantio do milho desce ainda mais.

Armados com tratores de esteira, sempre maiores, eles têm aproveitado qualquer brecha para plantar, mas os solos de estados norte-americanos, grandes produtores de soja, como os três estados I (Illinois, Indiana e Iowa) gabam solos com tanta matéria orgânica e argila que a agua não desce como em grandes partes do Brasil. Enquanto as temperaturas do solo estão quentes o suficiente, quem quer plantar a semente de milho caríssima no solo encharcado, só para sofrer, depois, como podridão em vez de raízes, e com infestações de lesmas e vermes-arame?

Os agricultores do Meio Oeste, onde ficam os Estados I, são famosos por compensarem o tempo perdido pela umidade, com a crença geral que o Meio-Oeste pode ser plantado inteiramente, dado pelo menos cinco dias aptos. Fui contatado por brasileiros me perguntando, durante as chuvas em excesso do ano passado, se os produtores de milho da minha terra conseguiriam plantar, dado os atrasos causados pela humidade. E eu respondi que sim. Que as plantadeiras tem sempre mais fileiras, puxadas por tratores de esteira sempre maiores e com faróis.

Mas aquilo foi então. Isto é hoje.

As previsões do tempo para as próximas semanas indicam mais do mesmo. E “o mesmo” quer dizer chuvas pesadas quase diárias, tornados, enchentes e mais tempo na porta do galpão, olhando para o céu fechado. O “mais do mesmo” tem ramificações ainda piores para estados como Iowa e Dakota do Sul, ao Oeste do Rio Mississippi, que já sofreram enchentes anteriormente em 2019, juntas com tornados que destruíram os armazenamentos verticais de grãos e outras estruturas nas propriedades rurais nas beiras dos rios.

Mas a hora de decisão está se aproximando com cada tique-taque do relógio. E isto com só 58% dos hectares pretendidos para o milho já plantados, de acordo com um relatório do USDA, do 27 de maio, comparado com os 90% da área normalmente plantada até aquela data. Enquanto isso, a data de plantio para eventualmente receber uma reivindicação de seguro para o “plantio prevenido,” sob apólice de cobertura máxima, já passou no 20º de maio para os produtores de milho de Iowa (que briga anualmente com Illinois para ganhar o título do estado norte-americano com a maior produção de milho). E de acordo com o boletim Cornbelt Update, os de Illinois, Indiana e Ohio só tinham até o 5º de junho. Até aquelas datas, os produtores de milho, nos seus estados respectivos, tinham que ou plantar, ou registrar para uma reinvindicação de plantio prevenido. Até a semana passada, de acordo com uma pesquisa, aproximadamente um terço de todos os produtores de milho dos EUA indicou que ia registrar para o pagamento de plantio prevenido, com 21% ainda não decidido.

“O melhor (progresso de plantio do milho) que provavelmente teríamos como esperar sendo feito (na semana que começou no dia 2 de junho) seria de 10% na base nacional, talvez mais”, disse o economista rural Gary Schnitkey da Universidade de Illinois. “Teremos que ter pelo menos oito milhões de hectares (plantados) - este número no mínimo”, reportou o Cornbelt Update.

Como resultado, Schnitkey acha que seria possível o produtor de milho do Meio Oeste poder vender milho aos US$11,80, ou mais - se ele estiver com milho para vender.
Meu colega Bryce Knorr, na revista Farm Futures, está estimando a área plantada de milho em 36,437 milhões de hectares, em 2019, com o potencial para o abandono de 10% deste total. A área colhida seria de 32.874 milhões de hectares, com produtividade média nacional de 177,6 sacas por hectare, assim produzindo uma safra norte-americana de milho, de 2019, de 5,85 bilhões de sacas.

Dado o tempo estranho deste ano, parece que aquele chá do sol vai levar um bom tempo para se aquecer, este verão, e pode acabar tendo um gosto um pouco amargo para quem produz milho (e soja).

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