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Paran Silos

Terça-feira, 02 de março de 2021

Lavouras entre dois extremos: estiagem e excesso de chuva

Assim como outras culturas de verão, a 1ª safra de feijão de Guarapuava e região sentiu os efeitos de uma somatória de fatores climáticos que pareceu empurrar a produção para um cenário difícil: falta de chuva suficiente na fase de semeadura, em setembro, e volume alarmante justamente no momento da colheita, em janeiro. Conforme apurou a REVISTA DO PRODUTOR RURAL, houve lavouras colhidas antes da chuvarada da segunda metade daquele mês, mas as áreas atingidas sentiram um forte efeito em termos de qualidade de grão e produtividade na região.

Produtor no município de Campina do Simão, Gustavo Rickli contou em entrevista, dia 11 de fevereiro, que em sua propriedade a quebra no feijão foi significativa: “Houve perdas, sim: 80 %”. Ele acrescentou que não se lembra de ter presenciado em outros anos as precipitações intensas que castigaram a lavoura no encerramento do ciclo, revelando ainda que, no local, como em outras fazendas, o pluviômetro surpreendeu: “Nessa intensidade, não tenho recordações. Vários dias sem sol. Registro pluviométrico de 430 mm”. Com isso, a cultura semeada em 4 de outubro com previsão de colheita em 15 de janeiro só pode ser colhida em 3 de fevereiro.

Já em Guarapuava, outro agricultor contou que, em seu caso, a maior parte das lavouras de feijão, implantadas em final de setembro, foi colhida no início de janeiro, antes das chuvas se intensificarem. Felipe Cruz reconheceu, no entanto, que nas áreas restantes a cultura sofreu: “Perdas de 20% a 30% na qualidade”. Ele observou ainda que o grão, retirado úmido da lavoura, precisa passar pelo processo de secagem – mais um fator que reduz o desempenho das áreas: “Tem que secar em secador. O feijão perde muito peso, consequentemente perde produtividade”.

Em sua análise, a maior dificuldade de áreas atingidas ficou por conta justamente desta queda no padrão, porque leva automaticamente à diminuição de preço ao produtor: “Todo mundo conseguiu colher depois que parou de chover. O problema é que baixou a qualidade do feijão. Ele vale metade do preço de um feijão bom, porque ficou muito feio, muito brotado”.

Cruz comentou ainda que, também em seu caso, não recorda de tamanha umidade durante o ciclo da 1ª safra na região: “Faz tempo que eu não vejo tanta chuva. Até, por sinal, os últimos verões foram super secos. Nessas épocas assim, não teve muito problema com chuvarada”.

Também na região central do Paraná, o quadro climático trouxe apreensão a quem se dedica ao feijão. Em Ariranha do Ivaí, o produtor Macedo Nunes Machado Filho, falando à REVISTA DO PRODUTOR RURAL, dia 11 de fevereiro, recordou que, na fazenda, a estiagem que ainda perdurava em setembro de 2020 já começou atrasando o plantio: “Gostaríamos de tê-lo feito em setembro, para colher em dezembro. Em 10 de outubro, realizamos o plantio. Somente da metade de novembro em diante começou a regularizar a chuva, chovendo bem em dezembro. Em janeiro, veio a chuva”.

Na colheita, o resultado foi bem diferente do esperado: “No dia 2 de fevereiro, fizemos uma tentativa de colher esse feijão. Entramos com a máquina na lavoura, mas o que se retirava lá era uma qualidade muito ruim, que não valeu a pena nem colher. Paramos com a colheita”.

“Graças a Deus, a gente havia se precavido e feito seguro”, conta o produtor.

Para o agricultor, o que ajudou foi uma decisão: “Graças a Deus, a gente havia se precavido e feito seguro. O seguro já havia feito uma vistoria na área e vai cobrir as despesas que tivemos de insumos e lavoura. Não vai ser uma perda de tudo”.

Machado Filho relembrou que chuvas intensas acontecem no início do ano: “Janeiro, historicamente, é um mês chuvoso. Até por isso que normalmente procuro plantar o feijão em setembro para colher em dezembro. Lógico, não são todos os meses de janeiro que são extremamente chuvosos. Mas de tempos em tempos, sempre vem um ano bem chuvoso em janeiro”, concluiu.

Em seu levantamento de safras de 25 de janeiro deste ano, abrangendo todo o Paraná, a SEAB aponta que em Guarapuava e região esta 1ª safra de feijão 2020/2021 começou com área de 15 mil hectares, numa redução de 8% em relação aos 16.220 de 2010/2020. Naquele momento, a previsão era também de redução na produtividade frente ao mesmo período do no passado, saindo de 2.115 kg/hectare para 1.801 kg/hectare (-15%) e de volume, de 34.305 t para 27.021 t (-21%).

 

Clima e mercado

A REVISTA DO PRODUTOR RURAL conversou com a agrônoma Ana Paula de Jesus Kowalski, do Sistema FAEP/SENAR-PR, sobre a 1ª safra de feijão no Paraná. Ela analisa o quadro da safra e as perspectivas de comercialização.  

PRP – As chuvas, entre dezembro de 2020 e janeiro de 2021, trouxeram perdas significativas para o feijão no Paraná nesta safra de agora?

Ana Paula – Sim, os períodos prolongados de chuva e tempo nublado acabaram por comprometer a produtividade e especialmente a qualidade do feijão desta 1ª safra. A produtividade esperada inicialmente de 2.019 kg/ha foi reavaliada para 1.875 kg/ha, uma redução de potencial de 8% até o momento, de acordo com o Deral/PR. As colheitas mais tardias foram as mais prejudicadas, com a qualidade se deteriorando a cada semana e a impossibilidade de colheita devido ao excesso de umidade. A produção paranaense desta 1ª safra de feijão está estimada em 284 mil toneladas, uma redução de 10% em relação à 1ª safra 2019/2020.  

PRP – É possível estimar como fica a relação oferta e demanda neste primeiro semestre no estado?

Ana Paula – Certamente a oferta será prejudicada. Tivemos uma expressiva perda na 2ª safra do estado no ano passado, também em função do clima. Os reflexos, vimos nos preços elevados registrados ao longo de 2020, fruto não somente da oferta menor, mas também de um aumento do consumo no mercado interno em função do isolamento social provocado pela pandemia.

PRP – Em 2020, apesar da pandemia, verificamos que, no Brasil, vários grãos apresentaram preços ao produtor aquecidos, entre eles o feijão. Você vê condições para isso se repetir neste ano?

Ana Paula – A expectativa é de uma produção nacional de 3,14 milhões de toneladas de feijão nesta safra 2020/2021, 2,4% inferior à da safra anterior, de acordo com a Conab. O consumo interno também deve ser ligeiramente inferior, de 3,05 milhões de toneladas contra 3,15 milhões de toneladas na temporada passada. Devemos ter mais um ano de oferta bastante ajustada à demanda o que tende a manter os bons preços de venda que foram registrados em 2020. Para os produtores que conseguiram colher suas lavouras com qualidade, o preço deve compensar, em parte, as perdas que estão sendo registradas até o momento.

 

 

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