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Quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Da superação ao sonho de receber visitantes na propriedade rural

A história do agricultor familiar de Guarapuava que mesmo com deficiência visual não desistiu da vida no campo

Márcio Gomes de Oliveira é um dos muitos agricultores familiares de Guarapuava-PR. Lá no Sítio São Matheus, no distrito de Guairacá, ele começa cedo a rotina com a ordenha das vacas leiteiras, café no fogão à lenha, corte de lenha, cuidados com a horta, entre outras atividades comuns em pequenas propriedades.

Nada de anormal para uma pequena propriedade rural, a não ser um detalhe, que chama a atenção: Márcio não enxerga nada. Ele perdeu totalmente a visão há 10 anos, após o descolamento da retina dos olhos.

Desde que nasceu, Oliveira teve baixa visão, devido a uma catarata congênita em ambos os olhos. Com dificuldade na escola, abandonou os estudos e começou a trabalhar cedo. Somente aos 17 anos, ele e a família procuraram ajuda para tentar melhorar a visão. “Depois de uma cirurgia em Curitiba, melhorou um pouco”, conta o agricultor.

Aos 28 anos, conseguiu terminar o ensino médio, por meio do supletivo. Depois disso, teve a oportunidade de trabalhar no administrativo de um hospital. “Foi a única oportunidade de sair do serviço pesado. Fiquei por quatro anos, mas resolvi comprar um caminhão pequeno e fui fazer transporte de lenha para uma cooperativa. Contratei motorista e assim consegui ganhar mais”, revela.

Mas o sonho de Márcio sempre foi ter uma propriedade e trabalhar no meio rural. Assim que conseguiu economizar, comprou a propriedade, onde vive nos dias atuais. “Pretendia trabalhar mais um pouco, estruturar bem a propriedade e depois vir morar, mas não deu tempo. Fiquei cego, perdi a visão do olho esquerdo e logo em seguida do olho direito. Tentei reverter através de cirurgia, mas não foi possível. Descolou totalmente a retina”.

Márcio já era casado com a esposa Sirley e com a perda da visão, eles tinham uma escolha a fazer: ficar na propriedade e se adaptar ou largar tudo. “Eu tinha bovinos de leite, milho, feijão, mandioca, galinha e pato. De repente, me vi totalmente cego para cuidar da propriedade. Tudo em produção. Pensei: como vou sair e abandonar tudo aqui?  E era muito pesado para minha esposa fazer tudo sozinha”, relembra. Ambos optaram por morar na propriedade e tocar as atividades.

Como o produtor tinha a memória de quando ainda enxergava, foi resgatando as lembranças sobre o terreno, a localização do lago, obstáculos, enfim, cada local. “Comecei a sair pela propriedade, a me virar, primeiro com os animais. Fui dando um jeito de fazer a ordenha e amansar os animais. Chegou a época de colher a roça e tinha que dar um jeito. Com a ajuda da minha esposa, fui conseguindo”.

Márcio não reaprendeu só as atividades do campo, mas também as atividades cotidianas. “Reaprendi a fazer o café, acender o fogão a lenha, fazer queijo, fazer broa”, comenta entusiasmado.

Quando questionado sobre o que fez ele não desistir, o agricultor responde: “meu desejo de continuar morando no meio rural. Sempre quis ter contato com a natureza e com os animais. E se eu ficasse na cidade, não  teria muito o que fazer. Eu tinha que continuar a vida. E eu penso sempre que todos nós temos limitações, mas não precisamos focar nisso”.

Panificação com apoio da Coopavel

Hoje uma das principais atividades econômicas da propriedade rural é a agroindústria. Duas vezes por semana  são produzidos pães, bolos e bolachas para venda. “Minha broa de milho é muito boa”, orgulha-se Márcio.

A Cooperativa Coopavel de Cascavel teve conhecimento da história do produtor no fim do ano passado. Com isso, Márcio foi o personagem do tema do Show Rural Coopavel 2020: “Reinvente sua vida no campo”. Com a história do produtor guarapuavano, o vídeo da campanha publicitária de um dos maiores eventos do agronegócio do Brasil ganhou diversos prêmios no FestVídeo.

Como forma de agradecimento e reconhecimento da Coopavel, o produtor rural recebeu uma fábrica de panificação completa. “Com estas máquinas nós conseguiremos produzir em maior quantidade e acrescentar produtos à nossa produção, como macarrão, bolachas diferentes, etc. Falta só o alvará da Vigilância Sanitária do município”. Além da elaboração da marca, como o logo e tabela nutricional, que vai nas etiquetas dos produtos. Isso também será apoiado pela cooperativa, tornando a produção da agroindústria mais profissional e rentável ao casal.

 

Projeto de inclusão na propriedade rural

O Sítio São Matheus, do casal Márcio e Sirley, está inserido na rota Caminhos do São Francisco, que vem recebendo atenção do Município para projetos de turismo. Com isso, Márcio está adequando a propriedade para um projeto que receberá visitantes, principalmente crianças e pessoas com alguma limitação, pensando na inclusão social. “Eu mesmo vou ser o guia, mostrar a propriedade. Pensei em receber as crianças, porque elas estão em formação ainda, não têm preconceitos e com essa experiência elas vão aprender e ter a oportunidade de respeitar as diferenças. Os visitantes vão observar a propriedade, como funciona o meio rural, como é tirar um leite e entender que, mesmo com limitações, qualquer pessoa pode fazer qualquer coisa. E se alguém se sentir desmotivado, quero incentivar e mostrar que todos somos capazes. Respeitando as diferenças, todo mundo é produtivo e tem algo a contribuir”.

A propriedade rural está sendo adequada para receber qualquer pessoa e por isso algumas obras estão sendo feitas. Para isso, Márcio está recebendo apoio da Secretaria Municipal de Turismo de Guarapuava e de um grupo de pessoas que se voluntariaram a ajudar na reestruturação da propriedade.

Uma página do Facebook foi criada (Sítio do Márcio e da Sirley) para buscar também ajuda financeira para o projeto. Lá contém todas as informações para quem quiser apoiar a iniciativa.

 

 

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