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Segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Produtos animais, saúde humana e Integração Lavoura-Pecuária

Dra.Tangriani Simioni Assmann1&PhD. Peter Ballerstedt2

A agricultura brasileira e o modo de vida rural, desde a década de 70, vem passando por uma grande transformação. Esta transformação resultou principalmente na especialização dos sistemas de produção agrícola.

As propriedades rurais que anteriormente desenvolviam atividades de produção animal juntamente com a produção vegetal, devido a especialização do sistema, removeram, na sua grande maioria, o componente animal do sistema de produção.

Desta forma, o monocultivo em grandes áreas, em especial da soja, vem trazendo uma série de novos problemas para o agricultor brasileiro, tais como surgimento de plantas resistentes a herbicidas, novas doenças e pragas, problemas de conservação de solo e menor eficiência do uso de adubos pelas plantas. Isto faz com que a quantidade de insumos, defensivos agrícolas e fertilizantes a ser aplicada seja cada vez maior, o que acarreta uma aumento de custo de produção, redução de lucratividade e aumento da possibilidade de contaminações ambientais.

Um possibilidade de diversificação do sistema produtivo agropecuário em nosso País é o retorno da exploração pecuária nas propriedades. Contudo, infelizmente, uma parte da expansão da fronteira agrícola brasileira deu-se sobre áreas de matas e, como normalmente, a primeira atividade a ser desenvolvida em áreas que estão sendo desbravadas é o cultivo de pastagens, passou-se a vincular a exploração agropecuária com desmatamento e degradação ambiental. Este cenário faz com que o cultivo de pastagens em muitos casos seja classificado como uma atividade degradadora.

Por outro lado, o advento dos sistemas de integração lavoura-pecuária, bem como o cultivo de áreas pastejadas com a devida adoção de tecnologia, vêm mostrando inúmeras vantagens em relação ao cultivo de áreas que não contam com a presença de animais. Entre algumas das vantagens do cultivo de pastagens, podemos citar: controle de erosão do solo; melhoria da estrutura e da fertilidade de solos agriculturáveis; conservação e proteção da água; habitat para uma grande diversidade de plantas e para a vida silvestre; aumento de eficiência do uso de fertilizantes; proteção ambiental de poluentes tais como sedimentos, resíduos urbanos e algumas substâncias tóxicas.

Em relação a nutrição, os seres humanos, como todos os organismos vertebrados, são heterotróficos. Ou seja, não podem produzir compostos orgânicos (produtos com carbono) a partir de fontes inorgânicas (minerais). Portando os seres humanos devem consumir outros organismos presentes na cadeia alimentar que atendam seus requerimentos nutricionais em proteínas e energia.

Atualmente, a maior parte das calorias e proteínas consumidas pelos seres humanos provém de vegetais, contudo é importante sabermos em quanto da superfície da terra disponível para agricultura mecanizável, ou seja produção de grãos (trigo, arroz, etc) que são atualmente a base da alimentação humana. Devido restrições de temperatura, topografia, qualidade do solo e disponibilidade de tecnologias, apenas 4% da superfície da terra é cultivável de forma mecanizável e, grande parte desta porcentagem já vem sendo utilizada pelos humanos.

Em contrapartida, a maior proporção do material vegetal produzida nos grandes ecossistemas mundiais é composta por plantas de baixa digestibilidade, que contém em sua composição celulose e fibras que não digeridas por seres humanos. Tal fato leva a necessidade um nível intermediário na cadeia alimentar para transformar essa imensa quantidade de energia disponível (celulose) em alimento para humanos e outros animais. Neste caso os herbívoros tem um papel de extrema importância para a segurança alimentar de diversos povos.

No ano de 2010, aproximadamente 86% das fontes alimentares para a produção animal consistiu-se em alimentos não consumíveis pelos seres humanos, sendo que um terço da produção mundial de grãos foi direcionada para produção animal, o que correspondeu a um uso de aproximadamente 40% das terras agriculturáveis.Foram utilizados aproximadamente 2 bilhões de hectares de pastagens para produção animal, sendo que destes, 700 milhões apresentavam aptidão para cultivos de grãos (Figura 1).

Considerando que pelo menos metade dos alimentos disponíveis para a nutrição dos ruminantes (pastagens, resíduos de agroindústria, entre outros) não pode ser utilizada para a nutrição humana, fazer uso desta fonte de alimentos para produção animal poderia significar um grande incremento na produção de alimentos de alto valor proteico.

A expansão da atividade agropecuária não implica em desmatamento e avanço sobre novas fronteiras agrícolas. No Estado do Paraná, estima-se que 4 milhões de hectares atualmente encontram-se cultivados com pastagens, em sua grande parte constituídas por gramíneas. Porém, via de regra, o investimento em tecnologia na atividade pecuária é menor do que o investimento feito na exploração para produção de grãos. Tal fato faz com que metade destas áreas encontrem-se degradadas.  Investimentos de tecnologias simples, tais como correção de solo, aplicação de fertilizantes e substituições das forrageiras por outras espécies mais produtivas, já elevariam, em muito, a capacidade de produção animal das propriedades e de nosso Estado.

Além destas áreas com maior aptidão agrícola para o cultivo de pastagens, o Estado do Paraná ainda poderia contar com mais de 4 milhões de hectares para o desenvolvimento de produção de ruminantes, via a tecnologia de Integração Lavoura-Pecuária. Durante o período de primavera e verão, aproximadamente 6,5 milhões de hectares do Paraná são cultivados para produção de grãos, principalmente soja, milho e em menor proporção feijão. Contudo, calcula-se que,durante o período de outono e inverno, apenas 1,3 milhões de hectares são utilizadas para a produção de cereais de inverno (trigo, aveia e cevada), outra parte é destinada para o cultivo de culturas de cobertura de solo, mas, a maior parte da área de produção de grãos do nosso Estado permanece em pousio neste período. Estas áreas se constituem, igualmente, em importante espaço para incrementos de produção animal.

Ironicamente, embora exista esta grande disponibilidade de áreas e condições climáticas e de solo adequadas para produção de ruminantes no Paraná e no Brasil como um todo, com as quais poucos países podem contar, muitas vezes, informações vinculadas pela mídia ou via os guias nutricionais oficiais insistem em não explicitar, que para a nutrição humana, os alimentos de origem animal são nutricionalmente superiores aos produtos de origem vegetal. Quantidades iguais de calorias energéticas provenientes de produtos animais não têm o mesmo efeito metabólico no corpo humano. Iguais quantidades de proteína bruta e minerais originários de produtos animais ou de produtos vegetais, não são metabolicamente equivalentes.

Assim sendo, melhorias tecnológicas na exploração de ruminantes poderiam assegurar o suprimento de alimentos de qualidade para a população brasileira e mundial uma vez que a produção de forragens e de ruminantes ocupam nichos ecológicos específicos, os quais, necessariamente não competem com a produção de alimentos de origem vegetal. Os produtos originários de ruminantes, tais como carne vermelha e produtos lácteos são uma fonte significativa de alimentos para a população mundial e a participação deste tipo de produto na nutrição humana deverá aumentar futuramente. O Brasil apresenta características edafoclimáticas que nos possibilitam a liderança na produção de alimentos de elevada qualidade nutricional, em sistemas produtivos ambientalmente mais adequados e mais sustentáveis.

1 Doutora em Produção Vegetal e Professora do Departamento de Agrárias da UTFPR/Campus Pato Branco

2 Pesquisador em pastagens e forrageiras na Empresa Barenbrug – Estados Unidos da América

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