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Quarta-feira, 01 de novembro de 2017

Congresso abordou diversos assuntos sobre Sistema Integrado de Produção Agropecuária

Cascavel sediou dos dias 21 a 24 de agosto o 1º Congresso Brasileiro de Sistemas Integrados de Produção Agropecuária e o 4º Encontro de Integração Lavoura-Pecuária no Sul do Brasil. Considerado como o futuro da agropecuária, o sistema de integração foi debatido por meio de palestras técnicas, mesas redondas, apresentação de trabalhos e ainda pôde ser observado na prática, por meio de visitas técnicas.

O evento contou com a participação de mais de 350 estudantes, produtores, técnicos e pesquisadores oriundos de diversos estados brasileiros e ainda participantes de países como Paraguai, França e Estados Unidos.

O evento teve seis eixos técnicos: Serviços Ecossistêmicos; Adubação de sistemas e ciclagem de nutrientes; Produção animal e vegetal; Avanços técnico-científicos; Econômico Social; e Parâmetros edáficos.

O Congresso foi promovido pelo Governo do Estado do Paraná, Iapar, Emater, Embrapa, Associação Regional dos Engenheiros Agrônomos de Cascavel e diversas universidades estaduais, entre elas, a Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro).

A REVISTA DO PRODUTOR RURAL DO PARANÁ conversou com alguns palestrantes do evento. Confira um resumo dos principais temas discutidos:

Sustentabilidade

O tema central do Congresso foi “Intensificação com Sustentabilidade”. O coordenador do evento e pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) de Santa Tereza do Oeste, engenheiro agrônomo Elir de Oliveira, afirmou que “o termo sustentabilidade não é novidade. Trata de visão compartilhada pelas lideranças mundiais em busca de uma agropecuária moderna, onde são compatibilizados os interesses econômicos, sociais e preservando ou recuperando o meio ambiente, visando atender um mercado nacional e internacional cada vez mais exigente”. Oliveira complementou ainda que “diante da brusca queda nos preços da carne bovina, o momento é oportuno para reverter o quadro, com ações de marketing visando acenar aos consumidores e às agências certificadoras internacionais que a carne bovina brasileira é de qualidade, produzida a pasto e de forma sustentável”.

SIPA

O pesquisador também ressaltou a importância da criação, durante o Congresso, da Sociedade Brasileira de Sistema Integrado de Produção Agropecuária (SIPA), que une os setores de pesquisa e produtivo. “A intenção é que esta sociedade brasileira não seja para tratar de assuntos acadêmicos e científicos da área, mas, sim, criar uma sociedade baseada no tripé pesquisa, assistência-técnica e setor produtivo. Isso é fruto de debates e conclusão de que os resultados das pesquisas precisam chegar até os produtores, através de assistência técnica bem formada e informada. Da mesma forma, haverá um fluxo inverso, onde os produtores e assistência poderão sugerir as prioridades de pesquisas que são gargalos para alavancar o setor”.

Carta de Cascavel

Durante o evento, foi elaborada a Carta de Cascavel, onde os participantes também expressam suas preocupações e sugestões que vão desde a formação acadêmica até a retomada do Plano Agricultura de Baixo Carbono, que visa a recuperação de 15 milhões de hectares de pastagens degradadas, implantação de quatro milhões de hectares de sistemas de integração lavoura-pecuária. Estes compromissos foram assumidos pelo Governo Brasileiro na Conferência da ONU para o Meio Ambiente, em Copenhague (COP/95).

Adubação de sistemas em integração lavoura-pecuária

A agrônoma Tangriani S. Assmann, professora da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), durante o Congresso palestrou sobre Adubação de sistemas em integração lavoura-pecuária.

Tangriani conversou com a REVISTA DO PRODUTOR RURAL sobre o assunto e comentou que o conceito de adubação de sistemas tem como base a ciclagem biológica de nutrientes entre as fases de um sistema de rotação, buscando a máxima eficiência de uso de nutrientes, reduzindo entradas, evitando perdas e mantendo a fertilidade do solo em longo prazo. “A adubação de sistemas considera todas as culturas envolvidas na rotação no esquema de transferência de fertilização entre os cultivos como um componente chave. A transferência de nutrientes entre as culturas pode se dar diretamente, via formas inorgânicas ou indiretamente, via formas orgânicas, resultantes dos processos de mineralização”.

Ela destaca ainda as particularidades da adubação na integração lavoura-pecuária. “No caso deste tipo de sistema integrado, em que a produção é realizada predominantemente a pasto, sabe-se que os animais podem reciclar N, P e K com eficiência. Por outro lado, a produção de bovinos em confinamento pode resultar em grande perda de nutrientes, especialmente quando os dejetos animais não são manejados adequadamente. A reciclagem destes dejetos seria a melhor opção para integração dos sistemas de produção animal e de grãos, o que resultaria em uma redução de uso de fertilizantes e redução de possíveis contaminações ambientais”.

Para Tangriani, o grande problema da adubação em sistemas integrados no Brasil é que não são levadas em consideração as características climáticas do país, sendo baseadas em países de clima temperado, cuja recomendação é direcionada para um único cultivo. “A recomendação é direcionada para um cultivo, considerando as necessidades e a eficiência de uso dos fertilizantes apenas para uma cultura. O efeito residual destas fertilizações e as modificações que podem causar no sistema solo-planta-animal são raramente avaliadas como possível motivo para redução de aplicação de insumos. Tal fato reduz a eficiência do uso dos fertilizantes pelas plantas, aumenta o custo de produção e os riscos de contaminações ambientais”.

Por esta razão, a professora conclui que “se torna urgente a mudança de paradigmas de metodologias de recomendação de adubação e calagem, adequando esse novo paradigma às condições edafoclimáticas e de rotações de culturas vigentes nos trópicos e subtópicos brasileiros”.

 

Ensino SIPA nas universidades

O ensino do Sistema Integrado de Produção Agropecuária nas universidades brasileiras foi tema de mesa redonda durante o Congresso. Entres os debatedores, destacou-se o professor Sebastião Brasil, da Unicentro. “Uma das nossas principais constatações foi que o maior entrave para a integração lavoura-pecuária tem sido dos técnicos e nem tanto do produtor rural. O produtor, muitas vezes, deseja fazer a integração, mas o técnico não se acha preparado e confortável para fazer as indicações técnicas para a integração”.

Para Brasil, o principal atraso da educação nas universidades brasileiras quando se fala em ciências agrárias é a falta de multidisciplinaridade e transdisciplinaridade. “Fala-se muito em focos sistêmicos, mas não se ensina isso nas universidades. Porque nas instituições de ensino se tem um currículo ainda muito compartimentalizado e o aluno quando sai da graduação não consegue fazer ligação entre as ciências. Porque além de envolver as ciências agrárias, existem aspectos sociais, econômicos, áreas que estão fora das ciências agrárias, envolvendo outras ciências, inclusive a da saúde”.

Para haver uma mudança neste ponto, Brasil afirma que a formação dos próprios professores deve mudar. “Cada professor é formado em uma especialidade e não tem o desejo de querer avançar para conhecer e entender sobre outras ciências. Se um professor não tem contato com a multidisciplinaridade e a transdisciplinaridade enquanto está fazendo um mestrado ou doutorado, ele não vai saber ensinar isso aos acadêmicos”.

O professor vê que as mudanças nos métodos do ensino brasileiro devem acontecer o quanto antes, mas que será um percurso longo, já que a educação do país ainda é bastante engessada. “E isso é um problema bastante específico no Brasil. Para se ter uma ideia, o doutor Gilles Lemaire, do INFRA, na França, participou da mesa redonda como ouvinte e comentou que essas intervenções na educação lá na França já foram feitas na década de 1980, com a mudança do ensino das ciências agrárias para algo modulado e mais aberto”.

 

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