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Quinta-feira, 18 de maio de 2017

Nogueira pecã, ovinos, erva-mate e natureza

Numa propriedade rural, coloque: nogueiras-pecã, ovinos e erva-mate. A mata nativa, reserve. Acrescente a visão de que uma área com 10 hectares de campo e outros oito de natureza pode ser não apenas viável, mas até ecologicamente correta. Junte a estes ingredientes um bocado de coragem para iniciar atividades totalmente novas, disposição para buscar informações técnicas, uma dose diária de atenção aos dois tipos de cultivo e aos animais, além de paciência para investimentos de longo prazo. O resultado será o sistema produtivo que o produtor rural Fábio Siqueira e sua família resolveram implantar em seu sítio, o Rancho dos Siqueira, à margem da rodovia estadual PR 170, em Pinhão (PR). Quem agora passa pelo local, numa curva da estrada, vislumbra à distância o belo panorama das linhas de nogueiras. Pode até parecer que a propriedade é tradicional nas atividades ali implantadas. Mas Siqueira revelou que eles, na realidade, aceitaram o desafio de tentar aproveitar melhor o sítio, partindo por caminhos que eram novidade para todos.

Na tarde de 22 de março, ao receber a reportagem da REVISTA DO PRODUTOR RURAL, ele relatou os avanços e as dificuldades que tem encontrado. Mas, entre surpresas, algumas boas, outras desafiadoras, o produtor se mostrou confiante na opção de diversificar.

Siqueira contou que iniciou com as nogueiras-pecã em 2013. A meta é ter, no futuro, um produto ainda pouco produzido no Brasil, mas bastante valorizado. Para a aquisição de mudas, ele e o irmão recorreram à parceria entre o Sindicato Rural de Guarapuava e os Viveiros Pitol, de Anta Gorda-RS (na parceria, que busca facilitar o acesso àquela cultura, a entidade sindical passou a ser um local em que os interessados podem fazer encomendas de mudas). Em maio, teve início o plantio das hoje cerca de 600 nogueiras, em seis hectares, num espaçamento de 12m por 12m.

Um fato curioso marcou aquele momento, conforme recordou o produtor rural com um sorriso. Decorridos em torno de dois meses, a área do pomar recém implantado seria coberta pela neve que na noite de 23 de julho daquele ano atingiu boa parte do Paraná, em especial os municípios do centro-sul do Estado, como Guarapuava, Pinhão e outros. Na época, assinalou, houve quem acreditasse que as nogueiras não sobreviveriam. No entanto, ele e o irmão Marlon hoje comemoram: apenas três anos e meio depois, já começam a ver, em algumas das árvores, os primeiros frutos. Se nesta atividade as safras iniciais são pequenas, Siqueira porém enxerga no presente uma condição que considera promissora para o amanhã: em uma loja de Guarapuava, disse ter visto neste ano pecã descascada à venda por um preço em torno de R$ 8,50 cada 100 gramas.

Mas para obter o produto, ressaltou, “não é só plantar e deixar” o pomar à própria sorte. Ele enfatizou que a nogueira-pecã é uma cultura como qualquer outra e, sendo assim, necessita do olho do dono. Atenção diária. Para informações técnicas de manejo, o produtor rural destacou que tem recorrido aos Viveiros Pitol (que contam com o agrônomo Júlio Medeiros, voltado àquele cultivo). Ao mesmo tempo, o produtor rural também tem consultado um livro específico sobre a cultura, “O Cultivo da Nogueira-Pecã” (editado pela Universidade Federal de Santa Maria [UFSM] - Colégio Politécnico da UFSM – Núcleo de Fruticultura Irrigada). Ele completou que vem mantendo contato, por internet, inclusive com um dos autores.

Outra fonte de informação que considera importante, acrescentou, está também no Rio Grande do Sul, em um evento que passou a fazer parte de sua agenda como produtor rural: a Festleite, de Anta Gorda, realizada a cada dois anos com o objetivo de destacar os setores do leite e da noz pecã. Siqueira contou que esteve na 6ª edição da festa, promovida entre os dias 28 de abril e 1º de maio de 2016, no Parque Municipal de Eventos Aldi João Bisleri, e elegiou a programação - entre as várias atrações, teve lugar um Seminário da Cultura da Noz Pecã e um salão de gastronomia voltado ao leite a à pecã.

Com isso, o produtor rural e seu irmão buscam aplicar no campo as informações: “As nogueiras se desenvolveram bem, só que a gente está direto cuidando, com aplicação de adubo, uréia e todos os tratos culturais que os agrônomos estão recomendando”, detalhou, sublinhando que outro cuidado necessário, observado na propriedade, são as podas de verão e de inverno.

E como em qualquer cultura, Siqueira apontou que dificuldades também vieram. Em sua avaliação, na região, a formiga é a praga que mais ataca. “O problema é que ela corta a brotação nova. Isso é o que acaba complicando o crescimento da nogueira”, explicou. Para amenizar a incidência, a alternativa tem sido os produtos granulados ou pulverizados, aplicados com o costal. “Com o granulado, a gente tem mais êxito no controle”, opinou. Perguntado se este combate é suficiente para tornar o pomar viável, ele  responde que sim, mas aponta que “o ataque é bem grande”. Neste ano, prosseguiu, outro desafio foi o aparecimento de um fungo. Registrada pela primeira vez desde que a família começou na pecã, a doença levou a uma perda que em sua estimativa chegou a cerca de seis mudas.

Por outro lado, em 2017, algumas nogueiras já começaram a dar frutos. “Temos grandes perspectivas para a nogueira-pecã aqui na região”, afirmou. Ele exemplifica mencionando que o próprio viveiro do qual adquire as mudas demanda produção para a industrialização.

A ideia do consórcio pecã-ovinos surgiu na sequência, num conceito que vem sendo adotado por vários produtores voltados às duas atividades: enquanto os animais mantém o campo limpo, as nogueiras fornecem a eles, no verão, o sombreamento necessário para seu bem-estar. Aqui também, tudo teve de ser iniciado, como as instalações para o rebanho e a aquisição dos animais. “Começamos há mais ou menos quatro meses. Compramos matrizes texel, para ajudar a manter mais limpo o pomar”, relatou. A raça, especificou, foi escolhida em função de possuir, entre suas características, a rusticidade. Já as informações de manejo, a família busca junto a profissionais da área de veterinária. Os planos são de aumentar a atividade, elevando o número de matrizes de 50 para 100.

Outra diversificação, definida logo após o plantio das nogueiras, foi a instalação de ervais na área de mata nativa da propriedade, onde a vegetação tem de ser preservada. “Iniciamos com dois mil pés. Mas nossa ideia é aumentar também o plantio no mato”, antecipou o produtor rural. A meta é a produção para venda ao setor, como mais uma fonte de renda. A primeira poda comercial, previu, deve acontecer já neste ano.

Com isso, os Siqueira seguem apostando que a diversificação deverá, ao longo do tempo, proporcionar um sistema produtivo eficiente e apoiado sobre várias atividades, convivendo lado a lado com a natureza. 

Atenção ao manejo: no Rancho dos Siqueira, formiga tem sido a principal praga que ataca a nogueira-pecã. Neste ano, também um fungo surgiu, causando a perda de seis mudas. De acordo com os produtores, a pecã, como qualquer cultura, necessita de atenção. 

 

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