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Segunda-feira, 19 de março de 2018

Manejo de Mofo Branco na cultura da soja

A soja, indubitavelmente, representa grande importância social e econômica a nível mundial e no Brasil, onde é uma das principais culturas plantadas na safra verão, com 33,08 milhões de hectares na safra 15/16 (CONAB, junho 2016).

O potencial de rendimento da soja pode ser afetado por diversos fatores, entre os quais se destacam os danos e as perdas causados pelas doenças, importantes limitadores da produção. O Mofo Branco, doença causada pelo fungo Sclerotinia sclerotiorum, apresenta alto potencial de prejuízo à cultura da soja, podendo ocasionar perdas em produtividade na ordem de 30%, chegando até 100% quando medidas de manejo não são tomadas. Esta doença é hospedeira em mais de 400 espécies de plantas registradas, entre as quais estão a cultura do feijão, algodão, tomate industrial, girassol, batata, crotalaria, entre outras espécies de hortaliças com exceção das gramíneas. O fato de o Mofo Branco ter muitos hospedeiros, restringe as opções e possibilidades para rotação de culturas nas áreas com histórico da doença.

O Mofo Branco manifesta-se com maior severidade em áreas acima de 600 metros de altitude, sob condições de alta umidade e temperaturas variando entre 10°C e 21°C. Desta forma, a doença encontra ambientes favoráveis em quase todos os estados do Sul e do Centro-Oeste do Brasil (CAMPOS, 2010). O fungo é capaz de infectar qualquer parte da planta, porém, a fase mais vulnerável na cultura da soja compreende os estádios da floração plena (R2), porque a flor serve como fonte primária de energia e alimento para fungo, estendendo-se ao início da formação das vagens (R3/R4).

Ciclo da doença

O fungo S. sclerotiorum, na ausência de plantas hospedeiras, consegue sobreviver no solo através de estruturas denominadas escleródios (foto 1) por um período de 5 até 10 anos. Os escleródios são de coloração escura, formados pelo próprio micélio do fungo. Estas estruturas contêm substâncias de reserva que permitem ao fungo sobreviver por muito tempo, até que as condições ambientais sejam favoráveis à sua germinação.

Os escleródios exercem papel importante no ciclo de vida do S. sclerotiorum. O seu ciclo inicia quando os escleródios germinam produzindo micélios (germinação miceliogênica). Os micélios penetram diretamente nos tecidos da base da planta ou formam os apotécios (germinação carpogênica) (foto 2), estas estruturas, por sua vez, germinam na superfície do solo e são parecidas com pequenos cogumelos que liberam ascósporos, infectando, especialmente, as flores (LEITE, 2005). Cada apotécio pode liberar milhões de ascósporos que serão disseminados principalmente pelo vento no dossel da planta, iniciando o processo de infecção primária pelas pétalas das flores, invadindo os tecidos sadios, como as vagens (foto 3), caules, hastes e folhas, formando uma eflorescência branca – que lembra o algodão – que são os micélios do fungo (foto 4). O emaranhado de micélios transforma-se em uma massa negra e rígida formando os escleródios. Os escleródios que podem estar tanto na superfície como no interior da haste e vagens infectadas (foto 5 e 6), que ao cair no solo tornam-se fonte de inoculo para culturas hospedeiras subsequentes, iniciando o processo infeccioso da doença (foto 7).

 

Como diagnosticar a doença?

Os primeiros sintomas da doença são lesões encharcadas que evoluem para coloração castanho-clara. Em seguida, desenvolvem uma abundante formação de micélios brancos e densos que se espalham em folhas ou qualquer outro tecido da parte aérea que, normalmente, tenham tido contato com as fontes primárias de infecção: as flores. Em poucos dias os micélios se transformam em escleródios, estruturas de resistência, de coloração escura; o seu tamanho pode variar de alguns milímetros ou alguns centímetros (Manual de Fitopatologia, 1997).

Práticas de Manejo

O manejo do Mofo Branco deve ser realizado através da adoção de várias medidas de controle que visam à redução da taxa de progresso do inoculo (escleródios no solo), reduzindo os riscos de uma epidemia e, mantendo assim, um nível abaixo do dano econômico (Görgen, et al., 2011), (EMBRAPA, 2009). Como parte do manejo integrado da doença, podemos destacar várias medidas de controle:

1- A aquisição e utilização de sementes certificadas e de boa qualidade, provenientes de empresas confiáveis, garantem a ausência de estrutura do fungo.

2- Tratamento de Sementes com fungicida impede a ausência de propágulos viáveis da doença na superfície das sementes, e quando este é sistêmico, protege a plântula nos seus estádios iniciais. O produto registrado para o tratamento de sementes no controle do Mofo Branco na cultura da soja é o Tiofanato Metílico 350 g/l + Fluazinam 52,5 g/l.

3- Cobertura uniforme do solo com palhada. A palhada consiste em uma barreira física proveniente, principalmente, de gramíneas como brachiarias e cereais de inverno, impedindo a luz direta sobre os apotécios, dificultando a sua formação e liberação dos esporos do fungo no ar. Esta prática pode inibir a formação de apotécios no solo em até 90%.

4- Rotação e/ou sucessão de culturas não hospedeiras do Mofo Branco, utilizando principalmente gramíneas;

5- Escolha de cultivares com arquitetura de plantas mais eretas que permitam maior aeração entre as plantas;

6- Espaçamento entre linhas, em áreas com histórico da doença. É sempre aconselhável utilizar espaçamentos que permitam maior aeração e boa penetração de raios Ultra Violeta no solo, uma vez que este fungo é bastante sensível.

7- Revolvimento do solo. A prática de revolvimento do solo leva os escleródios, estrutura de resistência, para camadas mais profundas. Procurar implantar o sistema de plantio direto na palha.

8- Controle de plantas daninhas. Um bom controle de plantas daninhas é importante para a redução da doença, através da eliminação de plantas hospedeiras do patógeno presente na área, utilizando herbicidas pré-emergentes.

9- Limpeza de implementos e colhedeiras. Sempre que possível, é aconselhável realizar a limpeza de todos os equipamentos utilizados em nas operações em áreas com histórico de Mofo Branco, evitando a disseminação para outras áreas ou talhões não infestados.

10- Controle Biológico. Existem vários microorganismos parasitas de escleródios, como Rhizopus spp., Aspergillus spp., Penicillium spp. e formas saprófitas de Fusarium. Trabalhos de pesquisa tem mostrado a eficiência do uso de Trichoderma spp. no controle biológico de Mofo Branco. O Trichoderma apresenta algumas limitações às altas temperaturas, raios ultra-violetas e baixa umidade relativa. Em decorrência destas limitações, cuidados devem ser tomados ao aplicar o produto na área. Sempre que possível, fazer as aplicações no final do dia ou à noite, com o solo úmido ou então, irrigar a área quando tiver sistema de irrigação, assegurando a sobrevivência e a distribuição do fungo, aumentando a sua eficiência.

11- Controle Genético. Ainda não há, no mercado, materiais resistentes ao Mofo Branco, porém, existem materiais com características de plantas (plantas eretas, precoces e tolerantes ao acamamento) que ajudam a reduzir a incidência da doença.

12- Controle Químico. A sua eficiência vai depender, sobretudo, da época, qualidade da aplicação e o modo de aplicação, de forma que o produto possa atingir as partes inferiores das plantas e a superfície do solo. A primeira pulverização deverá ser feita nas primeiras aberturas das flores, (estádio R1 da cultura da soja) e a segunda aplicação no intervalo de 12 a 15 dias. São poucos os fungicidas registrados para o controle de Mofo Branco na soja: Fluazinam 500 g/l, Procimidona 500 g/kg, Carbendazin 500 g/l, Tiofanato Metílico 350 g/l + Fluazinam 52,5 g/l. (Oliveira, et al., 2011)

Para o eficiente controle do mofo branco na cultura da soja, o produtor tem que lançar mão das várias práticas que compõem o manejo integrado da doença que, quando combinadas, ajudam a reduzir a pressão do inoculo na área de maneira sustentável e racional, permitindo o aumento da produtividade e viabilizando a atividade agrícola em áreas com histórico da doença.

 

Referências:

CAMPOS, H.D.; SILVA, L.H.C.P.; MEYER, M.C.; SILVA, J.R.C.; NUNES JUNIOR, J. Mofo branco na cultura da soja e os desafios da pesquisa no Brasil. Tropical PlantPathology, v.35, p. C-CI, 2010. Suplemento.
CONAB, Acomp. safra bras. grãos, v. 9 Safra 2015/16 - Nono levantamento, Brasília, p. 1-174, junho 2016. ISSN 2318-6852
EMBRAPA. Centro Nacional de Pesquisa de soja (Londrina, PR). Ensaios cooperativos de controle químico de mofo branco na cultura da soja: safras 2009 a 2012. Londrina: EMBRAPA/CNPSo, 2014. 1-100 p. (EMBRAPA - Soja Documentos, 345).
LEITE, R.M.V.B. DE C. Ocorrência de doenças causadas por Sclerotiniasclerotiorum em girassol e soja.Embrapa Comunicado técnico 76, marco, 2005. Londrina, PR.
GÖRGEN, Claudia Adriana. Manejo do mofo branco da soja com palhada de Brachiariaruziziensis e Trichodermaharzianum‘1306’[manuscrito] / Claudia Adriana Görgen. - 2009. Iv, 72 f. : il., figs, tabs.
OLIVEIRA, M.V.; Santos, F. M.; Bisinoto, F. F.;Hamawaki, O. T.; Eficiência de fungicidas no controle da incidência e severidade do mofo branco (Sclerotiniasclerotiorum) na cultura da soja. Enciclopedia Biosfera, Centro Cientifico Conhecer - Goiânia, vol.7, N.12; 2011 Pág. 7.
KIMATI, H.; Amaorim, L.; Bergamin Filho, A.; Camargo, L.E.A.; Resende, J.A.M. (Ed.) Manual de Fitopatologia: Doenças de Plantas Cultivadas, 3 ed. São Paulo Agrômica Ceres, 1997. V2 Cap 61 P. 653.

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